TG35SS - Volume 2: A Luta da Bruxa - Uma Batalha Pela Esperança: Capítulo 5 - O Riso do Necromante [Parte 9]

 

                                                                     Parte 9

 

 Mesmo dentro de um sonho, ele ouvira tudo.

 Mari caminhava para mais sofrimento.

 Para não sacrificar mais ninguém, ela escolhera trilhar aquele caminho.

 Mas aquilo era um grande erro, pois isso não era uma escolha, pensava ele.

 Seu passado se repetia em Mari. O que acotecera com ela, o que acontecera com ele, se assemelhavam e se misturavam.

 “Errado.”

 Takeru, consciente por pouco, moveu aos poucos seus dedos para o lado.

 “Mari e eu... somos diferentes.”

 Ele colocou força em cada dedo agarrando e segurou a espada.

 “Ao contrário de alguém como eu, ela conseguiu escolher.”

 O ar assoviava pela perfuração que Takeru carregava em seu peito enquanto dores colossais fuzilavam seu corpo.

 Para conseguir se levantar, Takeru respirava mesmo que isso pudesse lhe matar de dor. Ele estava convencido. Respirou fundo e golpeou sua perna com o cabo da espada.

 Com a ira transbordando seu peito com maior intensidade que a dor, Takeru ficou de pé e seus ferimentos reabriram e voltaram a sangrar.

 - Acha que eu vou te deixar escapar...?!

 Fincou sua espada no chão, ele precisava se levantar a qualquer custo.

 Seu corpo estava em pedaços mas seus olhos estavam cheios de vida.

 Olhos vermelhos, emanando raiva. Takeru não havia perdido sua determinação para lutar.

 - ...Mari, tem algo que eu preciso mesmo contar pra você...

 Com essas palavras, Mari parou no lugar.

 - ...Isso, na verdade... pode ser algo muito doloroso de aceitar...

 - ..............?

 - ...Mas, você precisa saber disso...

 Ele ficou a espada mais à frente de si e arrastou seu corpo em direção de Mari.

 - ...As crianças do orfanato que você queria salvar...

 Ele cerrou os dentes e se preparou para lhe entregar a verdade. A verdade que Mari não sabia mesmo depois de recuperar suas memórias.

 - As crianças que você quer ver...

 Ele levantou a cabeça para encarar Mari. Seu rosto moldado pela dor; não física, mas a que ele sentia em seu coração.

 - ...Elas não estão mais entre nós....!

 Mari estava em choque e se inclinou olhando para Takeru.

 - O-oque você quer dizer?

 - Ootori investigou você. O orfanato na fronteira estava nos arquivos das investigações da Inquisição... Realmente houve um incidente, está tudo registrado lá.

 - ......

 - Mas... o que foi descoberto no final do incêndio... na cena do crime... É diferente do que você parece lembrar.

 Mari estava ficando cada vez mais inquieta por causa do rumo da conversa. Ela estava começando a entender.

 Olhar em seu rosto era difícil de suportar, mas ele precisava dar os fatos a ela.

 - O que foi descoberto foi... Os corpos carbonizados de uma bruxa..... e mais cinco crianças.

 O ar deixou os pulmões de Mari.

 Ela não conseguia falar.

 Sem saber o que dizer, ela balançou freneticamente a cabeça.

 - I-isso não pode ser verdade, porque... E-eu ouvi suas vozes. Escutei de verdade todos falando no telefone... E-elas estavam falando comigo. Eu sei que ouvi!

 - É a verdade... Ootori não mentiria sobre esse tipo de coisa.

 - Não acredito! Porque eu conversei com as crianças sobre coisas que só eles sabiam! O caçulinha até me chamava de “Nee-yan”!

 - ...Mari.

 - Não... Não. Não, Não, Não, Não! Eu não acredito nisso. Eu não posso ter que acreditar nisso!

 Mari tentava desesperadamente negar a verdade que haviam lhe contado.

 Ainda assim, as palavras de Takeru perfuraram sua alma. Para salvar Mari ele precisava feri-la e acabar com sua pequena esperança.

 - Se não acredita mesmo... Por que não pergunta pra ele?

 Usando a espada como uma bengala, Takeru alcançou o ombro de Mari e passou pelo seu lado.

 - Não é mesmo? Desembucha... Feiticeiro!

 Haunted balançou a cabeça e suspirou.

 - Eu estava me perguntando que tipo de coisa você ia falar... Um discurso encorajador, emotivo... Era isso? Sinto muito contrariar, mas não posso dizer que foi uma mentira, por isso... Nacht, mostre o resto para Mari.

 Hauntend estendeu a espada para a direção de Mari e Takeru.

 De imediato, ela não entendeu o motivo do gesto. Mas depois ela entendeu e percebeu que era tudo verdade... O fato de que era tudo... Uma mentira.

 

 - Nee-yan. Como você é ingênua!

 

 - Você não deveria acreditar tão facilmente nas pessoas!

 

 - Nee-san você sempre foi uma coração-mole, não?

 

 - Lembra de quando, antes de morrer, eu fingi que estava doente e nós dois fomos comer sorvete escondidos?

 

 - Nee-yan, a gente ama você.

 

 - Agindo sem pensar só pela gentileza. Fico preocupado com essa inocência exagerada.

 

 - Nee-yan, quero ir no parque de diversões que nem aquela outra vez.

 

 Saindo da espada, vozes de crianças amadas por Mari ecoavam pela arena. Vozes preciosas emolduradas em suas memórias faziam ela querer abraçar aqueles sons. Lágrimas de saudades corriam de seus olhos.

 - Claro que isso é só uma imitação de vozes, hahaha. Não é nada real. As memórias de cada um foram extraídas de seus corpos e recriadas por Nacht.

 Haunted informava enquanto mostrava outro sorriso.

 - Mas de forma nenhuma aquilo foi uma mentira. Eu fiz e sustento a promessa de que vou definitivamente fazer você se encontrar com as crianças.

 - .........

 - Isso porque... as crianças estão apenas mortas, sabe?

 - .........

 - E eu sou um necromante, lembra? Eu posso reviver as crianças, nada demais. Ah, aliás... Aquele que matou os pirralhos... Foi euzinho também.

 Como se oferecesse uma bênção para Mari, Haunted disse a ela toda a verdade.

 Mesmo que ela precisasse cometer crueldades, ela ainda assim queria salvá-los, mas isso já não era mais possível. As memórias que ela teve nunca mais se repetirão. Estava tudo perdido. Ela viva em uma ilusão. Todo seu trabalho a troco de nada.

 E todas as pessoas inocentes que morreram por causa de Mari,

 Morreram em vão.

 - ...NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOO!!!

 Um grito preencheu todo o domo-barreira mágico.

 A dor de perder alguém, o peso de seus pecados, Mari queria que tudo isso acabasse.

 Seus gritos agradavam os ouvidos distorcidos de Haunted.

 - Aah, Mari-san, você é a melhor Queria poder gravar essa voz e usar como despertador de manhã...! Vai ficar tudo bem! Abrace seus irmãozinhos mais uma vez! Eles podem estar um pouco gelados, mas vão ficar bem contentes se você os aquecer com seu abraço! Se quiser, posso até esquentar os corpos deles pra você, certo? Pode deixar comigo que eu ainda tenho o DNA de cada um deles. Posso fazer um clone ou um Homunculus se preferir! Dá pra reconstruir exatamente como cada um se parecia quando estavam vivos! Recuperar as mentes vai precisar de uma invocação de almas, mas vai dar tudo certo! Enquanto vocês se amarem, não importa se as crianças agirem como vegetais, vocês vão ser felizes! Todos serão felizes. Iihihihihihihihihihihihihihihihi, ahahahahahahahahahaha!

 O grito desesperado e a gargalhada insanescida continuaram no que parecia ser uma eternidade.

Um fim para aquele desespero não vinha. Mari estava enlouquecendo. E havia uma pessoa que poderia impedir que isso acontecesse.

 Um estalo de gatilho soou e uma espada azul-celeste desceu em frente de Mari.

 Como se cortasse pelo meio do pânico dela, a lâmina era bela, graciosa e forte.

 - ...Você não fez nada de errado. – disse o dono da espada.

 Mas ela não se mexeu. O tempo para Mari não voltou a fluir.

 - Sua escolha... Pode ter sido um erro. Mas mesmo que você tivesse escolhido diferente, você ainda assim se arrependeria. Escolhas feitas sob pressão nunca estão corretas.

 - ............

 - Você tomou sua decisão. Não há nada de errado nisso.

 Takeru estava em frente a Mari e tirou a espada do chão.

 - Então quem é o mais errado aqui? Quem é o maior vilão da história toda? Isso já ficou claro desde o início.

 Ele retirou a lâmina de perto dela e guiou a ponta da lâmina para ele, Haunted.

 - Aquele palhaço sorridente ali... É claro que é esse feiticeiro de merda!

 Com uma voz e fúria páreas às de um demônio, Takeru vociferou.

 Sua voz havia tocado Mari. Ela deixou a cabeça pendurada pelo pescoço, olhando o chão e chorou mais um pouco.

 - Mas eu fazendo coisas ruins? Isso.. Não é verdade, garoto.

 - Caso isso seja realmente o que você pensa, eu não vou falar mais nada.

 - Eu... no final não consegui salvar minha família e fiz uma multidão de pessoas morrerem.

 - Se a sua vontade é culpar a si mesma, eu não vou impedir... Mas...

 Mari olhou para as costas protegidas por uma armadura índigo.

 - Quando você procurar redenção... ao invés de continuar a se flagelar por isso, use a magia que você tanto estima para salvar aqueles que estão na sua frente. Não era esse o seu sonho desde o início?

 - ........

 - Talvez você não consiga se perdoar. Talvez as pessoas que morreram tenham ressentimentos e rancor por você. Mas... pelo que eu sei, você com certeza vai conseguir reparar os seus pecados.

 Ele disse aquelas palavras para Mari e pensou como ele gostaria de tê-las ouvido de alguém também.

 - Se for peso demais para sua consciência aguentar e você sentir que está prestes ser esmagada por esse fardo,

 - ...Take...ru...

 - Se parecer que você está prestes a desistir a qualquer momento, então eu-

 -Takeru...

 - Eu vou carregar metade desse peso para você!

 - Takeru!

 Segurando a espada como se fosse outro membro de seu corpo, Takeru partiu para a batalha.

 Ele assim fez para consertar as mortes no passado.

 Para carregar metade dos pecados de Mari.

 - Discípulo da escola Kusanagi – estilo Gume Duplo, Kusanagi Takeru. A partir deste momento, hei de me tornar o demônio encarnado.... Preparado, Feiticeiro?

 “Vamos começar essa batalha”

 “Para acabar com o purgatório e pelo bem da redenção, para escolher proteger.”

 - Kehehe... hihihi... Que ridículo... raso, superficial! Suas palavras não ressoam nada comigo! O que você chama de salvação não passa de pura besteira!

 Haunted preparou a espada e assumiu uma postura de estocada.

 Sua mão esquerda estendida tremia ao fechar o punho. Seus olhos tremendo em adrenalina.

 O homem gargalhou.

 Para atender a seus desejos.

 Para ouvir gritos agonizantes de mais pessoas.

 - Mas muito bem! Por que eu não ensino a você o que é o desespero de verdade?!

 - .........

 - Vamos brincar, Caçador de Bruxas!!

 “Que a agonia comece”

 Ambos gritaram enquanto corriam em direção ao outro.

 Suas espadas se chocaram e eles estavam trancados em batalha.

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