TG35SS - Volume 2: A Luta da Bruxa - Uma Batalha Pela Esperança: Capítulo 5 - O Riso do Necromante [Parte 4]

 

                                                               Parte 4

 

 - Continuem a atirar. Não parem nem por um segundo. Permaneçam atirando mesmo que o elemento se pareça com um monte de carne.

 Hayato passou as ordens para toda a Inquisição do alto da arquibancada.

 O corpo de Haunted convulcionava violentamente, cada impacto de bala era um salto.

 - Por quê?! Não deveria haver nenhum problema com Yoshimizu Akari!

 No comunicador, ouvia-se a voz confusa de seus colegas.

 Sem tirar os olhos da execução contínua de Haunted, Hayato respondeu aos seus subordinados:

 - O inimigo é um necromante. Yoshimizu Akari provavelmente já havia sido morta pelo inimigo. O que vocês vigiavam até agora provavelmente era uma cópia feita por aquele homem.

 - Uma cópia...?

- Um clone, um homunculus. É o que esse ele usou para se infiltrar. Prática comum só para necromantes mais poderosos. Aquilo é o corpo ressuscitado de Yoshimizu Akari que foi mandado de volta para a escola enquanto carregava sementes daquele organismo mágico. Elas devem ter se desenvolvido assim que o torneio começou.

 - Organismos mágicos... Como algo consegue crescer daquele tamanho?! E transferência humana usando um...? É a primeira vez que vejo uma coisa dessas!

 - É chamado de <Jardim de Beladona (Horto do Desespero)>. Essa magia é produto dos piores hereges e deveria ser óbvio para vocês.

 Hayato acirrou o olhar

 - Disse a vocês, não? Mandei esperarem uma ofensiva totalmente fora do comum.

 - .............

 - É assim que a magia funciona, em primeiro lugar.

 Hayato trocou o canal de comunicação e repassou ordens para as outras equipes.

 - Time de segurança, foquem na evacuação de civis. Não deixem ninguém se ferir.

 - Afirmativo!

 Sougetsu assistia tranquilamente Hayato coordenar seus subordinados enquanto esvaziava seu balde de pipocas pouco a pouco.

 - Não precisa se preocupar em tirar todo esse povo. Queria que vocês colocassem a captura daquele cara como prioridade, tá?

 - Com todo o devido respeito, não tenho intenção de transformar civil nenhum em sacrifício. Gostaria que soubesse que enquanto eu estiver aqui, não vou permitir outro pandemônio como o Incidente do Ataque do Herói.

 - Nesse dia você estava em viagem diplomática... Bem, já passou. Contanto que você capture ele direitinho.

 - Captura é impossível. Caso não prossigamos para matar, não vamos vencer contra ele.

 -  Impossível até mesmo para Kurogane Hayato?

 - Sim. É impossível.                                                                                                             

 - Hmmm... Bom, já conseguimos tirar informações do cérebro de uma pessoa morta. Se deixar o corpo dele inteirinho, eu deixo vocês matarem ele.

 - Obrigado pela sua consideração.

 Sougetsu lidava com aquilo como se estivesse se divertindo.

 Ao olhar Haunted, pode-se ver o mago ajoelhado e ainda recebendo disparos até o ponto em que ele finalmente caiu.

 Confirmando a queda, o grupo cessou fogo.

 - Quem mandou pararem de atirar?! – vociferou Hayato.

 - M-mas ele acabou de cair-

 - Preparem-se para interceptar! Ele está vindo.

 Hayato rugiu o comando e sacou sua arma.

 A arma do capitão do EXE era um grande revólver, exibindo um brilho negro. De calibre .50 e 5 balas no tambor. Tinha um perfil elegante e parecia pesada.

 Em seu cano, as palavras [ O Malleus Maleficarum l – Calígula] estavam engravadas.

 Ele apontou a arma para Haunted, braço esticado para o lado, cabeça virada para mirar e corpo meio-erguido.

 No mesmo instante,

 - Kuuuuroooogaaneeeeeeeeee!!

 Berrando com uma voz rouca, Haunted ergueu seu corpo do ponto onde se encontrara deitado.

 Em um piscar de olhos, os inquisidores paralisaram de choque e presenciaram um fenômeno que desafiava a própria gravidade.

 O necromante, cheio de perfurações, gargalhou na cara de Kurogane Hayato.

 Foi quando espessos tentáculos espinhosos dispararam por debaixo dos pés de Haunted, partes do <Jardim de Beladona (Horto do Desespero)>.

Cinco deles se projetavam a uma enorme velocidade para os inquisidores e o público que fugia. Nenhum dos galhos procuravam Hayato.

 O capitão do EXE, em um único e fluído movimento, atirou em todos os cinco tentáculos.

 Todas as cinco balas foram disparadas em um único instante. Projéteis de calibre .50 acertaram um tentáculo cada. Não com a força de uma arma de fogo normal.

 O som ressoado parecia com o de um canhão de navio, havia um impacto enorme.

 Ainda com todo o poder, o choque não foi o suficiente para matar as criaturas. Eles foram atirados para outra direção ao invés de atingir a audiência.

 - ....!

 Porém, um dos tentáculos foi desviado para a torre de controle adjacente ao coliseu.

 O tentáculo acertou uma viga na base de suporte da torre de controle, que começou a se inclinar para o centro do coliseu.

 - Recuar! – Ele gritou para os inquisidores.

 A estrutura de metal desabou no centro.

 

 Após a queda, percebia-se uma cortina de poeira pairando a arena e um rugido pode ser ouvido dentro do coliseu.

 Tendo se preparado e procurado proteção do impacto, Hayato gritou no microfone.

 - Relatório de danos...!

 - Ala esquerda. *cof cof* Temos feridos por aqui, mas a audiência escapou um impacto direto.

 - Ala direita. Grande número de feridos. Quanto às baixas... Não sabemos.

 - Todos os feridos devem deixar o coliseu junto dos civis evacuados. Tranquem os portões depois da retirada. Qual a situação do 35° pelotão?

 - ...Desconhecida. A comunicação for cortada completamente. Comunicador danificado... ou no pior dos casos...

 Ao ouvir o relatório, Hayato cerrou os olhos.

 Ele olhou para a nuvem de poeira e pensou: “ Haunted não vai morrer com uma coisa dessas”

 Com uma certeza instintiva, Hayato apontou sua arma para o centro da arena.

 - Onde ele está...

 A visibilidade era terrível, nem uma única figura humana era vista.

 Incorreto. Havia uma silhueta agachada, apenas ela.

 Hayato alinhou a mira no vulto.

 - ... <Número da Besta (Área 666)>

 Assim que ele ouviu a voz da névoa de areia, um grande círculo mágico surgiu embaixo da figura.

 No momento seguinte, Hayato viu Haunted com a costa da mão virada para ele e apenas o dedo médio a vista.

 - ...Haunted...!

 - Até mais, Kurogane Hayato.

 Uma onda de magia transbordou do centro do círculo.

 E um zumbido agudo perfurou seu ouvido.

 *------------*

 Cobrindo apenas o perímetro do círculo mágico recém-formado, via-se uma barreira negra sendo erguida.

 Ainda que a reação de disparo de Hayato tenha sido instantânea, a ativação da barreira fora levemente mais rápida.

 A bala acertou a parede e caiu inerte, longe de atingir Haunted.

Hayato cerrou os dentes e baixou a arma, relutante.

 - ...Um novo modelo de barreira mágica.

 Sougetsu, aparecendo ao seu lado, pousou a mão em seu queixo, parecendo interessado. Ele passou por Hayato e foi inspecionar a muralha.

 A barreira imposta por haunted se parecia com uma sombra negra.

Círculos menores estavam engravados e fluíam ao redor da superfície.

 - A magia contida aqui é bastante densa. Ela modifica a si mesma constantemente conforme o processo mágico ocorre, não vai dar pra quebra-la normalmente. Para quebrar essa porcaria... Provavelmente é preciso de [Vlad].

 - ...Ootori está dentro da barreira, Diretor. Presumo que contata-la é difícil, talvez até impossível. Parece ter algum tipo de mecanismo de interferência de magia.

- Essa é a análise de [Calígula]?

 - Sim. Porém, considerando a alta densidade mágica desta barreira, mesmo Haunted não conseguiria manter ela ativa por muito tempo, minha estimativa é de dez minutos.

 Estreitando os olhos, Sougetsu arremessou o balde de pipoca, agora cheia de areia. O som da embalagem caindo se misturou aos gritos que se iniciaram logo depois.

 - O quê?!

 Hayato olhou para a origem dos berros. Ele viu um dos <Spriggans (cavaleiros)> flutuando nas proximidades.

 Mas com um olhar mais atento, podia se dizer que ele não flutuava.

 Seu abdome havia sido perfurado e ele estava sendo erguido.

 O que havia impalado o <Spriggan>...

 ...Era o novo modelo de Dragoon, o mesmo que havia sido estreado na cerimônia de abertura do torneio.

 - ....Quem é que está pilotando aquilo?

 - N-não sabemos! Ninguém tocou em nenhum deles desde o fim da cerimônia.

 - ...Não pode ser.

 Hayato estava chocado. Ele havia tido uma fraca premonição, sobre o pior dos casos.

 “Mas um Dragoon, uma das armas do próprio arsenal da Inquisição...”

 - Análise do Dragoon concluída: não há piloto! O sistema foi tomado!

 Pouco depois do relatório da equipe de inteligência, o corpo do inquisidor foi atirado e o Dragoon ativou os mecanismos e moveu várias de suas juntas.

 *VWOOOOOOOOOOOMMMM*

 O rugido não parecia ter vindo de um ser artificial. O olho mecânico da máquina brilhava em rubro profundo, mangueiras de combustível mágico e óleo pulsavam e até mesmo a blindagem parecia animalesca.

 Sua forma não era a de uma máquina. Mostrava-se como um organismo híbrido, visceroso, grotesco e claramente produto de interferência com magia.

 Havia um Dragoon na ala leste e outro na oeste.

 - Isso é estranho... O novo modelo deveria estar revestido com liga de Oricalco de peso reduzido, um material anti-mágico. Esse tipo de interferência deveria ser impossível a menos que você penetre a armadura.

 - ...........

 - Dentro todas as possibilidades... Ou os dispositivos internos foram sabotados no processo de montagem ou a blindagem não é de Oricalco verdadeiro. Se for pra escolher o mais provável... seria o primeiro.

 - ...Diretor, por favor conceda permissão para utilizar um Devorador de Relíquias.

 - Eu não me importo. Destrua. Graças a essa barreira, eu não sei o que está acontecendo dentro dessa coisa. Por enquanto, precisamos deixar o feiticeiro para Kusanagi-kun.

 Sougetsu suspirou e deu de costas.

 Depois de obter a permissão, Hayato caminhou até o Dragoon.

 Seu rosto estava oculto pela longa franja.

 Colhendo do chão, ele levou o microfone dos narradores do evento para perto de sua boca e disse:

 - Todas as forças, recuem imediatamente.

 - M-mas se fizermos iss-

 - Recuar. Eu vou abate-los sozinho.

 Hayato cortou as comunicações logo depois de informar o outro lado. Ele levantou seu revólver, expôs o barril e colocou balas, uma a uma.

 Terminado a recarga, ele reposicionou o barril e vigorosamente girou o cilindro com a palma de sua mão. Pôde-se ouvir a peça rotacionar ruidosamente.

 Hayato ergueu o braço que segurava a arma e olhou para o alto. Por detrás da franja, seus olhos emanavam a aura sanguinária de um tirano.

 Ele encarou o Dragoon com tais olhos e anunciou:

 - Chegada é a hora do tirano, Calígula. Libere o cão da arma.

 *click*

 Seguindo a instrução de Hayato, o cão do Devorador de relíquias, [Calígula], emitiu um pequeno barulho de trás do tambor negro da arma.

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